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Dia Mundial da Água: sociedade civil se mobiliza para torneira não secar

Em meio a mais grave crise hídrica já vivida por São Paulo, cidadãos agem de forma inédita para pressionar o poder público e conscientizar a população sobre falta d’água.

Edison Urbano criou uma minicisterna de baixo custo e agora ensina outros a construí-la (Foto: BBC Brasil)
Edison Urbano criou uma minicisterna de baixo custo e agora ensina outros a construí-la (Foto: BBC Brasil)

Edison Urbano ainda estranha ser chamado de professor, mesmo quando está diante de uma turma em uma sala de aula em um centro cultural na zona norte de São Paulo.

Na quinta-feira (19), ele ensinava moradores da região a captar água da chuva para usar se a torneira secar – algo comum em muitas partes da capital paulista desde meados do ano passado, quando foi aplicada uma diminuição da pressão na rede de abastecimento.

Urbano aprendeu por conta própria a fazer uma minicisterna com tonéis, tubos de PVC e telas de mosquito para coletar, filtrar e armazenar a água da chuva.

Há cinco meses, dedica-se quase integralmente a ensinar como montar este sistema como um dos coordenadores do Movimento Cisterna Já, uma das várias organizações sociais criadas em São Paulo desde que a água começou a faltar, no ano passado.

Os reservatórios baixaram a níveis inéditos e, neste domingo (22), o estado passa pelo segundo Dia Mundial da Água – celebrado todo 22 de março – consecutivo em meio a uma crise hídrica sem precedentes.

“Quis agir para reverter ou amenizar a situação. Temo que, sem água, a gente acabe em uma guerra civil, porque vai faltar alimento também. É esse medo que me move”, afirma Urbano.

“Já o que me move é o desespero”, diz a psicóloga Camila Pavanelli, autora do Boletim da Falta D’Água, um blog em que ela reúne e comenta em postagens semanais as mais recentes informações sobre a crise hídrica.

Esse trabalho começou em outubro passado, quando Pavanelli decidiu listar em um post no Facebook o que havia lido sobre o assunto. Em meio a curtidas e compartilhamentos, também vieram pedidos para que disponibilizasse a pesquisa de uma forma que fosse mais fácil encontrá-la. Para quem já tinha um blog pessoal, fazer outro sobre a falta de água foi natural.

“Fazer o blog me faz sentir viva. Não cogito morar em São Paulo e não discutir este problema”, diz Pavanelli.

Sinal de alerta
Estas iniciativas são recentes em São Paulo. A cidade já tinha ONGs voltadas para temas como moradia, combate à violência, mobilidade, educação e saúde, entre outros.

Mas tamanha mobilização social em torno da água é novidade, porque “só agora se faz necessária”, como explicou Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas da USP, em aula sobre a crise hídrica realizada no fim de fevereiro no vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp), palco de nove em cada dez manifestações na região central da cidade.

O primeiro alerta soou em dezembro de 2013, quando choveu 72% abaixo do normal. Aquele foi o verão mais quente desde 1943, quando começaram as medições. Nos dois meses seguintes, a média de chuvas foi 66% e 64% menor, respectivamente, fazendo com que São Paulo enfrentasse a estiagem mais intensa desde o início do registro de chuvas, em 1930.

Em fevereiro de 2014, o nível do Sistema Cantareira, que abastece 6,2 milhões de pessoas na região metropolitana de São Paulo, atingiu 14,6%, o mais baixo desde sua criação, em 1974.

A Sabesp, empresa de abastecimento de São Paulo, informou à BBC Brasil que vem realizando uma série de medidas para ampliar a disponibilidade de água e reduzir a dependência da região metropolitana do Cantareira. Em comunicado, a empresa ainda afirma “seguir rigorosamente as determinações de órgãos reguladores”.

Uma destas medidas foi a autorização para usar duas cotas do volume morto do Cantareira, nome dado à água que ficava abaixo do nível de captação. Mas, na ausência de chuvas capazes de recompor o sistema, seu nível continuou a baixar a patamares inéditos.

Mobilização
No entanto, para Ortellado, existe uma percepção por parte de alguns de que as autoridades não agiram de modo adequado em relação à crise, o que teria catalisado a mobilização social em torno da água.

“Se as pessoas acreditam que não é possível contar com o governo, isso cria um sentimento de urgência que faz a sociedade civil agir por conta própria, usando suas habilidades em prol desta causa”, afirma Ortellado.

Marussia Whately coordena a Aliança pela Água, organização que reúne mais de 40 ONGs (Foto: BBC Brasil)
Marussia Whately coordena a Aliança pela Água, organização que reúne mais de 40 ONGs (Foto: BBC Brasil)

Para a urbanista Marussia Whately, isso significa coordenar o trabalho de mais de 40 ONGs reunidas pela Aliança pela Água, organização criada em outubro passado para cobrar ações do governo, elaborar projetos para atenuar o impacto da falta de água e informar a população de seus desdobramentos.

Especializada em gestão de recursos hídricos, ela já atuou como consultora de ONGs, como a Imazon e o Instituto Socioambiental, e à frente da Aliança Pela Água tornou-se uma das principais vozes da mobilização da sociedade civil em torno da crise.

“Tínhamos organizações muito dispersas. A Aliança cria o espaço para elas interagirem e criarem uma agenda mínima de ações e propostas, além de uma força-tarefa para monitorar o respeito aos direitos dos cidadãos e impedir um retrocesso das conquistas”, diz Whately.

Para ela, o fato de São Paulo passar por uma situação sem precedentes torna a solução ainda mais complexa, na qual a participação de cidadãos é imprescindível.

“O debate não pode ficar restrito ao que a Sabesp planeja fazer. O problema vai muito além das represas”, diz Whately. “Temos que engajar a sociedade e fazer com que as pessoas revejam sua postura política e seus hábitos. Por ser uma crise grave, a solução não virá de um único ator.”

Minicisterna
Urbano diz acreditar que está fazendo sua parte com os cursos sobre a minicisterna. Nesta semana, ele deu dois dias de aula para uma turma de 20 pessoas, entre jovens, adultos e idosos, que moram na Zona Norte de São Paulo, uma das regiões mais afetadas pela falta de água.

Primeiro, Urbano ensina a teoria, que inclui conceitos de sustentabilidade, saúde pública e hidrologia, enquanto vai construindo a minicisterna diante dos alunos. “Não fiquem esperando uma ação do governo. Tomem uma atitude, porque é nossa saúde que está em risco”, diz para a turma.

Urbano criou este sistema por necessidade. Técnico em eletrônica, ele viu seu trabalho minguar com a “chegada dos aparelhos da China”. Acabou demitido e, com dificuldade para conseguir um emprego, decidiu criar formas de economizar dinheiro.

Inventou um aquecedor de água com energia solar, um sistema de horta caseira e uma série de outros projetos que passou a divulgar por meio do site Sempre Sustentável, enquanto também dava cursos.

No ano passado, aceitou a sugestão de um amigo, o engenheiro Guilherme Castagna, de adaptar a minicisterna de acordo com as normas técnicas de reuso de água e ensinar como construí-la. Cinco meses depois, exibe com orgulho as fotos enviadas por ex-participantes do curso com suas próprias minicisternas.

“Fico muito grato. Sinto que estou fazendo alguma coisa. Se você reunir todas as minicisternas já feitas, vira uma cisterna gigante que eu não conseguiria construir sozinho”, diz ele.

Já Camila Pavanelli diz que contribui para sanar a crise ao organizar a “loucura de informações” em torno da crise hídrica. No início, ela publicava seu boletim diariamente, mas, desde o início do ano, mudou a tática. Passou a reunir reportagens e documentos por meio de uma conta no Twitter e a dedicar o domingo e parte da segunda-feira a escrever um post semanal.

“Não existe um interesse em se informar e há uma dificuldade em perceber que faltam políticas públicas para a água,assim como ocorre com a violência, por exemplo. Quero que as pessoas se mobilizem mais”, afirma Pavanelli.

“Seria arrogante pensar que vou conseguir fazer isso. Tem quem me critique. Mas também há muita gente que me agradece por usar meu tempo para fazer este trabalho.”

A psicóloga Camila Pavanelli publica semanalmente um boletim com as informações mais recentes da crise (Foto: BBC Brasil)
A psicóloga Camila Pavanelli publica semanalmente um boletim com as informações mais recentes da crise (Foto: BBC Brasil)

Desafios
Pablo Ortellado, da USP, diz que a mobilização social é importante para canalizar a insatisfação da sociedade civil e impedir que ela gere uma “selvageria, com quebra-quebra e saque de água”, como ocorreu em Itu, no interior de São Paulo, no ano passado. No entanto, também afirma que as organizações criadas em torno da crise hídrica enfrentam algumas dificuldades.

“É difícil mobilizar a população quando a insatisfação está mal distribuída pela cidade, já que falta água em alguns bairros e em outros não. E, como nunca vivemos uma crise assim, falta um grupo de referência, com legitimidade para mobilizar, como ocorre com outras questões sociais”, afirma o especialista.

“As pessoas só vão para rua quando confiam nas organizações que se manifestam por isso. É importante que estes grupos comecem a construir essa legitimidade para representar a insatisfação da população.”

Em meio à crise e a mobilização provocada por ela, surgiram boas notícias. Chuvas acima da média histórica em fevereiro fizeram o nível dos principais sistemas que abastecem São Paulo voltar a subir. Atualmente, os reservatórios do Cantareira estão em 16%. Com isso, a Sabesp afirmou que a região metropolitana está livre de racionamento até o segundo semestre.

No entanto, Urbano, do Cisterna Já, diz ter “plena consciência de que a situação vai piorar” – opinião compartilhada por Whately, da Aliança pela Água. “Vamos chegar à estação da seca numa situação igual ou pior do que no ano passado, porque as represas estarão com um nível mais baixo”, diz Whately.

O desafio para estas organizações agora é conseguir mobilizar a população, já que o interesse pelo tema diminui diante de um aparente risco menor de restrição no abastecimento. O Movimento Cisterna Já teve de cancelar um curso, porque o número de inscritos foi insuficiente. Por sua vez, o Boletim da Falta D’Água, que chegou a ter posts compartilhados 1,5 mil vezes, hoje não atinge 200.

“Ninguém mais quer saber de falta de água. Não consegui nem convencer meus vizinhos a instalar uma cisterna no prédio”, diz Pavanelli, que ainda assim não pretende abandonar o blog.

“Sinto-me um fracasso completo, mas isso me motiva. Outro dia, encontrei um vídeo dizendo que o Cantareira está cheio e que a crise é uma farsa. Foi visto por mais de 1 milhão de pessoas. Enquanto isso existir, é sinal de que preciso continuar. Se eu não fizer, quem vai fazer?”

Urbano planeja aumentar o número de cursos gratuitos para driblar a falta de interesse e aumentar a divulgação do projeto.

Por sua vez, Whately se diz otimista: “Trabalho há vários anos com a questão da água e finalmente começo a ver pessoas sabendo que Cantareira não é apenas o nome de uma serra, revendo seus hábitos e mais ligadas em um assunto tão importante. Ainda temos mais dois anos de crise pela frente pelo menos. A mobilização só começou.”

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748 milhões de pessoas ainda não têm acesso à água potável, diz ONU

3566089892_ed6d8012d5_zAinda hoje, cerca de 748 milhões de pessoas no mundo não têm acesso a uma fonte segura de água potável. Enquanto isso, a demanda por água para a fabricação de bens de consumo deverá crescer 400 por cento até 2050 (em relação os índices de 2000).

Os dados preocupantes são de um novo relatório das Nações Unidas, divulgado nesta sexta-feira, 20/3, em Nova Déli, na Índia.

Segundo o estudo “Água para um Mundo Sustentável“, o planeta pode enfrentar um déficit de 40% no abastecimento de água até 2030, se não melhorarmos drasticamente a gestão deste recurso precioso.

Os recursos hídricos e os serviços prestados por eles são essenciais para garantir o desenvolvimento sustentável das cidades e dos negócios. Ao mesmo tempo, este desenvolvimento também coloca uma pressão considerável sobre as fontes de água – agricultura, energia e indústria, todas essas atividades possuem impactos sobre o uso e governança da água.

“Há um consenso internacional de que a água e o saneamento são essenciais para a realização dos objetivos de desenvolvimento sustentável. Eles estão intrinsecamente ligados às alterações climáticas, agricultura, segurança alimentar, saúde, energia, igualdade, gênero e educação”, disse Michel Jarraud, Presidente da UN-Water e Secretário Geral da Organização Meteorológica Mundial.

O estudo também alerta para a intensificação das disputas hídricas. Conflitos interestaduais e regionais também podem surgir devido à escassez de água e má gestão. Atualmente, 158 das 263 bacias hidrográficas transfronteiriças não têm qualquer tipo de gestão cooperativa.

Outra ameaça à disponibilidade de água são as alterações climáticas, que podem afetar os padrões de chuvas, influenciando diretamente no ciclo hidrológico.

A redução de precipitação compromete, por exemplo, a recarga de aquíferos, essencial para o abastecimento de metade da população mundial.

Ao mesmo tempo, as reservas subterrâneas têm diminuído. Estima-se que 20% delas são sobre-exploradas, o que acarreta em deslizamentos de terras e intrusão de água salgada em áreas costeiras.

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Maior aquífero do mundo fica no Brasil e abasteceria o planeta por 250 anos

Imagine uma quantidade de água subterrânea capaz de abastecer todo o planeta por 250 anos. Essa reserva existe, está localizada na parte brasileira da Amazônia e é praticamente subutilizada.

Até dois anos atrás, o aquífero era conhecido como Alter do Chão. Em 2013, novos estudos feitos por pesquisadores da UFPA (Universidade Federal do Pará) apontaram para uma área maior e nova definição.

“A gente avançou bastante e passamos a chamar de SAGA, o Sistema Aquífero Grande Amazônia. Fizemos um estudo e vimos que aquilo que era o Alter do Chão é muito maior do que sempre se considerou, e criamos um novo nome para que não ficasse essa confusão”, explicou o professor de Instituto de Geociência da UFPA, Francisco Matos.

Segundo a pesquisa, o aquífero possui reservas hídricas estimadas preliminarmente em 162.520 km³ –sendo a maior que se tem conhecimento no planeta. “Isso considerando a reserva até uma profundidade de 500 metros. O aquífero Guarani, que era ao maior, tem 39 mil km³ e já era considerado o maior do mundo”, explicou Matos.

O aquífero está posicionado nas bacias do Marajó (PA), Amazonas, Solimões (AM) e Acre –todas na região amazônica– chegando até a bacias sub-andinas. Para se ter ideia, a reserva de água equivale a mais de 150 quadrilhões de litros. “Daria para abastecer o planeta por pelo menos 250 anos”, estimou Matos.

O aquífero exemplifica a má distribuição do volume hídrico nacional com relação à concentração populacional. Na Amazônia, vive apenas 5% da população do país, mas é a região que concentra mais da metade de toda água doce existente no Brasil.

Por conta disso, a água é subutilizada. Hoje, o aquífero serve apenas para fornecer água para cidades do vale amazônico, com cidades como Manaus e Santarém. “O que poderíamos fazer era aproveitar para termos outro ciclo, além do natural, para produção de alimentos, que ocorreria por meio da irrigação. Isso poderia ampliar a produção de vários tipos de cultivo na Amazônia”, afirmou Matos.

Para o professor, o uso da água do aquífero deve adotar critérios específicos para evitar problemas ambientais. “Esse patrimônio tem de ser visto no ciclo hidrológico completo. As águas do sistema subterrâneo são as que alimentam o rio, que são abastecidos pelas chuvas. Está tudo interligado. É preciso planejamento para poder entender esse esquema para que o uso seja feito de forma equilibrada. Se fizer errado pode causar um desequilíbrio”, disse.

Mesmo com a água em abundância, Matos tem pouca esperança de ver essa água abastecendo regiões secas, como o semiárido brasileiro. “O problema todo é que essa água não tem como ser transportada para Nordeste ou São Paulo. Para isso seriam necessárias obras faraônicas. Não dá para pensar hoje em transportar isso em distâncias tão grandes”, afirmou.

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Poluição do mar e dos rios causa prejuízos para economia das cidades

Com mais praias limpas, receitas dos hotéis poderiam aumentar em até R$ 882 milhões/ano, calcula Associação Brasileira da Indústria de Hotéis.

Este domingo (22) é o Dia Mundial da Água. Já imaginou se todas as nossas praias, rios e lagoas estivessem livres da poluição? Além de bom para a saúde, seria saudável também para a economia.

Uma cidade maravilhosa cercada de águas, nem sempre limpas. Nas praias, quase 27% das amostras coletadas no ano passado desaconselharam o banho de mar. Nos rios, a situação é ainda pior. Dos 15 pontos de coleta analisados no município do Rio, nenhum apresentou qualidade ótima ou boa. Apenas cinco estão em situação regular. Nos outros dez rios, a qualidade da água foi considerada ruim.

Quem mora na cidade já se acostumou a ver imagens de rios poluídos, cheios de esgoto sem tratamento e lixo flutuante. Mas o que não se viu ainda é a conta que o Jornal Nacional vai mostrar. São números importantes e surpreendentes que revelam como a despoluição total das nossas águas pode impactar de forma direta a saúde, a qualidade de vida e a economia da cidade. Com mais praias limpas, as receitas dos hotéis poderiam aumentar em até R$ 882 milhões por ano.

“Nós estamos falando em 12% de perda de ocupação na oferta hoteleira. Se você calcular isso, dá cerca de 7 mil quartos que deixam de ser ocupados por dia, fruto dessa poluição. Fora que o turista vem e faz compras aqui. O prejuízo é muito grande”, calcula Alfredo Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis.

Quem vive de atividades aquáticas vê no Rio de Janeiro um potencial para virar um grande polo de lazer, principalmente na Baía de Guanabara.

“É todo um comércio relacionado a esse lazer. Nós estamos falando de quiosques, de restaurantes, de bares. Hoje, o Rio de Janeiro perde uma fortuna por não ter condições de água adequadas. Isso o poder público precisa entender, de que mais que um custo é o melhor investimento que o Rio de Janeiro pode fazer”, diz Marco Aurélio Ribeiro, presidente da Confederação Brasileira de Vela.

Um dos maiores ganhos da água limpa é a redução do número de casos de doenças, como diarreia, hepatite e leptospirose, entre outras. Água limpa traz saúde, qualidade de vida e desenvolvimento econômico para qualquer cidade.

Grupo é preso por aplicar golpe do poço profundo

Em meio a escassez de chuva na Região Jaguaribana, quatro pessoas faturaram mais de R$ 30 mil enganando agricultores em busca de água

Quatro pessoas foram presas suspeitas de envolvimento no golpe do poço profundo, no município de Jaguaribe, a 291 quilômetros de Fortaleza. Segundo a Polícia, a quadrilha se aproveitou da escassez de chuva e enganou mais de 40 pessoas, a maioria agricultores, lucrando mais de R$ 30 mil com a ação criminosa, em menos de duas semanas.
De acordo com informações da plantonista da Delegacia Regional de Jaguaribe, delegada Mary Cavalcante, a Polícia recebeu denúncias de pessoas que foram vítimas do golpe. “A gente recebeu a denúncia de que quatro pessoas estariam cobrando R$ 800 para fazer a escavação de poços profundos em Jaguaribe” explicou.
A Polícia foi até o local e abordou os quatro quando realizavam a marcação dos poços. Ainda segundo a delegada, após a constatação do golpe e prisão dos suspeitos, os policiais foram até a pousada onde o grupo estava hospedado há dois dias.
No local foram apreendidos R$ 10 mil em espécie (que seriam de vítimas), um automóvel, anotações e documentos que comprovariam o crime. “Eles entregavam aos agricultores um recibo e demarcavam o local onde seria construído o poço. Eles enganavam dizendo que a obra seria feita pelo Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas). Mas, o Dnocs não pode cobrar pelo benefício”, comenta.
As vítimas pagavam um valor que variava entre R$ 800 a R$ 1.200, dependendo do poço e do local. Segundo o tenente PM Rivelino Veiga, um poço em Jaguaribe custa em média R$ 20 mil. Durante o depoimento, a quadrilha relatou que 41 pessoas pagaram para ter os poços profundos. Segundo a Polícia, um dos presos seria funcionário do Dnocs e trabalhava marcando os locais de poços profundos.
De acordo com o escrivão Alexandre Meireles foram detidos Francisco Marques de Sousa, 53, Francisca Eloisa Antunes Pereira, 45, Antônio Wilson Ferreira da Silva, 69, e José Maria Silva Valente, 57. Os suspeitos foram autuados em flagrante por estelionato, formação de quadrilha e corrupção, sendo o último crime apenas para Francisco Marques, por utilizar um cargo público para aplicar golpes.
“O funcionário disse que apenas fazia a marcação, mas que não sabia como esses poços seriam feitos. Isso ocorria desde a semana passada, mas só chegou ao nosso conhecimento hoje, quando eles chegavam a um sítio em Jaguaribe para fazer mais uma marcação do local”, explicou a delegada plantonista de Jaguaribe.

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40% das reservas hídricas do mundo podem encolher até 2030, diz ONU

Relatório divulgado coloca Brasil entre países com mais estresse ambiental.
Nações Unidas celebram Dia Mundial da Água neste fim de semana.

Margem da represa Atibainha, na cidade de Nazaré Paulista (SP), que integra o Sistema Cantareira, principal manancial de São Paulo. O sistema voltou a receber chuva e chegou ao 20º dia consecutivo de alta, segundo boletim da Sabesp (Foto: Luis Moura/Estadão Conteúdo)
Margem da represa Atibainha, na cidade de Nazaré Paulista (SP), que integra o Sistema Cantareira, principal manancial de São Paulo. Apesar das chuvas de fevereiro e começo de março, sistema está pouco mais de 15% de sua capacidade com água (Foto: Luis Moura/Estadão Conteúdo)
  Um novo relatório divulgado pelas Nações Unidas nesta sexta-feira (20) afirma que, se nada for feito, as reservas hídricas do mundo podem encolher 40% até 2030 e, por isso, é preciso melhorar a gestão deste recurso para garantir o abastecimento da população mundial.

O documento, elaborado pela agência da ONU para Educação, Ciência e Cultura, a Unesco, aponta ainda que 748 milhões de pessoas no planeta não têm acesso a fontes de água potável.

Outra conclusão é que o Brasil está entre os países que mais registraram estresse ambiental após alterar o curso natural de rios. As mudanças nos fluxos naturais, segundo a análise feita entre o período de 1981 e 2010, mas que foi concluída em 2014, foram feitas para a construção de represas ou usinas hidrelétricas.

Entre as consequências dos desvios estão uma maior degradação dos ecossistemas, com aumento do número de espécies invasoras, além do risco de assoreamento.

Os autores do texto cobram do governo brasileiro e das demais nações da América Latina que priorizem a gestão da água para reduzir a poluição, principalmente em áreas urbanas, e evitar conflitos entre o desenvolvimento econômico e a preservação dos recursos naturais. Segundo a ONU, o gerenciamento dos mananciais deve ser vetor para o desenvolvimento sócio-econômico e redução da pobreza.

Aquíferos ameaçados

Mapa estresse ambiental (Foto: G1)

De acordo com o documento, 20% dos aquíferos mundiais já são explorados excessivamente, o que pode gerar graves consequências como a erosão do solo e a invasão de água salgada nesses reservatórios.

Os cientistas preveem ainda que em 2050, a agricultura e a indústria de alimentos vão precisar aumentar em 400% sua demanda por água para aumentar a produção.

Angela Ortigara, doutora em engenharia ambiental e integrante da Unesco na Itália, disse ao G1 que o foco do relatório é dar subsídios aos países para o enfrentamento da crise hídrica.

Segundo ela, a falta de acesso à água potável já melhorou muito – de 1990 até agora, 2,3 bilhões de pessoas deixaram de acessar recursos contaminados. No entanto, o número apresentado no relatório deste ano ainda é alto.

ONU (Foto: G1)

Para melhorar a situação, o relatório apresenta quatro sugestões aos países:

– É preciso conhecer seus recursos hídricos, melhorar o monitoramento para saber de onde vem a água, qual é a sua qualidade e como realizar uma distrubuição melhor;

– Definir estratégias para o futuro, com a previsão de cenários em torno da distribuição;

– Integrar as decisões dos setores de energia, agricultura e recursos hídricos para que as ações atendam a todas as áreas e sejam feitas de forma sustentável;

– promover a boa governança: as decisões em torno da água precisam ser transparentes e devem ter a participação da sociedade civil, para que a população se sinta obrigada a colaborar para atingir a sustentabilidade.

Tais medidas podem, por exemplo, ajudar o Brasil a resolver o atual problema de desabastecimento que atinge várias regiões metropolitanas do país.

A ausência de chuvas ao longo de 2014 baixou o nível de reservatórios importantes de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, que tiveram que implantar políticas restritivas de acesso a água, como racionamento ou aplicação de multa para quem gasta mais recursos hídricos.

Risco de escassez maior
Ary Mergulhão, coordenador de ciências naturais da Unesco no Brasil, explica que as políticas voltadas à água em grande parte do mundo ainda estão em formação, já que o tema “está em constante mutação e desafia a criatividade e o poder de gestão dos governos”.

“Alguns países que acreditavam que tinham muita água enfrentam atualmente problemas de escassez, má distribuição e má preservação. A consciência [dos governos] atualmente está mais crítica que antes, mas precisamos trabalhar mais”, explicou.

Cidade ao lado de açude que abastece Fortaleza sofre com falta d'água (Foto: Reprodução/TV Verdes Mares)
Cidades da região Nordeste também sofrem com a falta d’água (Foto: Reprodução/TV Verdes Mares)
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Brasil vive um conflito por água a cada três dias

Os conflitos por recursos hídricos nas áreas rurais do Brasil atingiram um novo record em 2014. Ao todo, foram registrados 127 casos, segundo dados preliminares de um levantamento anual feito pela Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Isso representa uma disputa por água a cada três dias. No ano passado, houve um aumento de 25,7% em relação a 2013, quando 101 conflitos foram identificados. Ao longo de dez anos, os conflitos hídricos no campo aumentaram quase 80%, uma alta expressiva.

Segundo a análise, a maior parte dos conflitos no período são provocados pelo uso e preservação da água (346), como ações de resistência para garantir a preservação do recurso. Outra fonte de conflitos é a criação de barragens e açudes (325), e, com menor incidência, a de apropriação particular (86).

conflitos-pela-agua-numeroEm 2014, também foi registrado o maior número famílias envolvidas nestes conflitos nos últimos dez anos: 42.815 ao todo (um crescimento de 40% em relação em 2013).

conflitos-pela-agua-familiasSegundo o CPT, o número de famílias atingidas tem sido maior nos estados onde há grandes projetos de hidrelétricas. “O Pará é o estado com o maior número de famílias envolvidas nesse período (69.302), a maior parte por conta da Construção da Hidrelétrica de Belo Monte”, avalia Roberto Malvezzi, assessor da Comissão.

“Além disso, o chamado Complexo Hidrelétrico Tapajós, que prevê a construção de sete usinas ao longo dos dois rios, no oeste do Pará, vai impactar diretamente 32 comunidades tradicionais, entre quilombolas, ribeirinhos, pescadores artesanais, extrativistas e cerca de dois mil quilômetros de território indígena, principalmente da etnia munduruku”, acrescenta.

CONFLITOS URBANOS
A contagem geral dos conflitos hídricos feita pelo CPT não leva em conta as disputas urbanas. Mas Malvezzi adianta que já é possível identificar dois tipos de conflitos nas cidades. O primeiro deles ocorre entre entes federativos, como a disputa entre Rio de Janeiro e São Paulo pelo Rio Paraíba do Sul, em meio à crise hídrica no Sudeste.

O segundo tipo, em parte também relacionado à escassez, é observado entre as empresas prestadoras de serviços de água e esgoto e os clientes atendidos por elas. “Isso ficou claro nos embates sociais em Itu e em outras cidades do interior de SP, por conta do racionamento e também pela pouca eficiência das empresas”, diz o assessor da CPT.

Conforme Malvazzi, a questão da escassez não é só quantitativa, mas também qualitativa, e envolve decisões políticas equivocadas. “Esta não é uma seca isolada, estamos modificando o ciclo das águas de forma insustentável. Os programas brasileiros são sempre baseados na expansão da oferta e no consumo predatório, sem pensar na sustentabilidade. É uma equação que não fecha”, conclui.

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