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Espaçonave movida pela luz solar é lançada com sucesso

LightSail foi pensada pelo astrofísico Carl Sagan na década de 1970 e pode revolucionar a exploração espacial


O foguete Atlas V, da Nasa, decolou da base aérea de Cabo Canaveral, na Flórida, nesta quarta-feira – Divulgação/Sociedade Planetária

A Sociedade Planetária, ONG fundada em 1980 por Carl Sagan, Bruce Murray e Louis Friedman, anunciou o sucesso do lançamento da LightSail, pequena espaçonave do tamanho de um pacote de pão de forma, mas com uma vela solar de 32 metros quadrados e apenas 4,5 micrômetros de espessura. Ela foi enviada ao espaço nesta quarta-feira a bordo de um foguete Atlas V, da Nasa, que decolou da base aérea de Cabo Canaveral, na Flórida, às 12h05, pelo horário de Brasília.

“Manhã perfeita para o lançamento de um foguete. Vamos mudar o mundo!”, escreveu pelo Twitter Bill Nye, diretor executivo da Sociedade Planetária.

Este primeiro teste não levou a espaçonave à altitude suficiente para o funcionamento da vela solar. A ideia era apenas testar a sequência de lançamento e abertura da vela. Um segundo teste, programado para abril do ano que vem, será completo, com lançamento a bordo do Falcon Heavy, da SpaceX. Ela será liberada a uma altitude de 720 quilômetros, o suficiente para escapar da atmosfera terrestre.

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Observatório Nacional lança software de Astronomia

ASTRO: Um Conjunto de Ferramentas de Astronomia‏
Foto: Divulgação Observatório Nacional

O Observatório Nacional acaba de lançar um software de Astronomia chamado ASTRO: Um Conjunto de Ferramentas de Astronomia‏.

Desenvolvido com ferramentas modernas para tornar sua funcionalidade amigável e intuitiva a partir de um website, o ASTRO conta também com aplicativos para os diversos dispositivos móveis que operam com o sistema Android ou iOS.

Um dos principais objetivos do ASTRO é torná-lo explorável, onde o público poderá aprender conceitos, simular e experimentar novos parâmetros para testar seus conhecimentos.

Confira o programa no endereço: http://daed.on.br/astro

© Copyright Clube de Astronomia Órion / Observatório Nacional

Relógio atômico bate recorde de precisão

Dispositivo não varia nem um segundo em 15 bilhões de anos.
Precisão deste novo pêndulo mais do que triplicou em comparação a 2014.

Foto mostra o relógio atômico ultra estável fabricado por cientistas americanos.
Foto mostra o relógio atômico ultra estável fabricado por cientistas americanos.

Uma equipe de pesquisadores desenvolveu o relógio atômico mais preciso do mundo, que não varia nem um segundo em 15 bilhões de anos, mais do que a idade estimada do universo — relatou um estudo publicado nesta terça-feira (21).

A precisão deste novo pêndulo mais do que triplicou em comparação a 2014, quando ele já havia batido um recorde, segundo estudo publicado na revista científica “Nature Communications”.

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Brasileira cria app que poupa água e ganha bolsa em universidade na Nasa

Mineira de 23 anos criou aplicativo para tornar plantações ‘inteligentes’.
Tecnologia reduz em até 60% consumo de água na irrigação.

Mariana Vasconcelos, de 23 anos, criadora do Agrosmart (Foto: Divulgação/Agrosmart)Mariana Vasconcelos, de 23 anos, criadora do Agrosmart (Foto: Divulgação/Agrosmart)

Um aplicativo que conecta o agricultor à sua plantação, reduzindo o consumo de água na irrigação, rendeu a uma brasileira de 23 anos uma bolsa para estudar em uma universidade na Califórnia ligada à Nasa (a agência espacial americana).

A administradora Mariana Vasconcelos, que mora em Itajubá (MG), foi selecionada entre mais de 500 pessoas para representar o Brasil como bolsista na Singularity University. A instituição, que funciona em um centro de pesquisa da Nasa no Vale do Silício, na Califórnia, selecionou empreendedores de 19 países para seu programa de imersão “Call to Innovation”.

Criada na fazenda do pai, Mariana desenvolveu em 2014 o Agrosmart, um aplicativo que promete tornar as plantações “mais inteligentes”.

A tecnologia utiliza sensores espalhados pelo campo, que avaliam a umidade do solo e a presença de pragas, entre outros parâmetros. Esses dados são interpretados pelo aplicativo, que indica ao agricultor os intervalos de irrigação e outras variáveis em tempo real.

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Câmara aprova adesão do Brasil a megatelescópio

 Concepção artística mostra como deve ser o E-ELT no pico do Cerro Armazones, no Chile

Concepção artística mostra como deve ser o E-ELT no pico do Cerro Armazones, no Chile

A Câmara dos Deputados aprovou na quinta-feira (19) a adesão do Brasil ao maior consórcio de pesquisas astronômicas  do mundo, o Observatório Europeu do Sul (ESO). A aprovação veio com mais de quatro anos de atraso. O acordo de adesão do país ao grupo foi assinado em dezembro de 2010 pelo então ministro brasileiro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende. O projeto segue agora para votação no Senado.

A construção do E-ELT no deserto chileno do Atacama custará cerca de 1 bilhão de euros e as primeiras observações são esperadas para daqui a dez anos. O telescópio, com 39 metros de diâmetro, ficará na cúpula do Monte Armazones, a 20 km do Monte Paranal, onde já está instalado o Telescópio Muito Grande (VLT), da ESO.

O novo aparelho “permitirá a caracterização inicial de exoplanetas com massa similar à da Terra, o estudo de populações estelares em galáxias próximas e observações ultra-sensíveis do universo profundo”, indicou a ESO, que tem sede em Garching, perto de Munique (Alemanha).

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Sistema Galileu: 6º satélite recolocado em órbita

FOTO: J.Huart/ESA

 

O satélite Sat-6 do sistema europeu de navegação Galileu, um dos dois satélites colocados em agosto passado numa órbita ruim, foi reposicionado numa trajetória melhor, anunciou a Agência Espacial Europeia (ESA), nesta sexta-feira.

Agora, os pesquisadores vão realizar testes até o final do mês para avaliar as performances dos instrumentos de navegação, e verificar se é possível se integrar ao sistema, garante a ESA em comunicado.

O programa Galileu foi desenvolvido para permitir ter uma alternativa ao sistema de navegação por satélite norte-americano GPS.

Lançado em 22 de agosto no foguete lançador russo Soyuz, a partir da Guiana Francesa, os dois satélites Sat-5 e Sat-6 não conseguiram chegar na órbita circular prevista para 23.522 km de altitude. Ao contrário, ficaram em uma órbita elíptica 6.000 km mais abaixo que o previsto e o erro não pôde ser retificado, tornando o sistema Galileu inoperante.

Desde então, a ESA iniciou uma missão de “resgate” e conseguiu, em novembro, reposicionar o Sat-5 numa órbita degradada, “um pouco mais adaptada às operações de navegação”.

Para o Sat-6, as operações de salvamento começaram em meados de janeiro e foram concluídas após seis semanas – ou 14 manobras depois.

A posição atual o coloca numa posição espelhada com relação ao Sat-5, com os dois satélites ficando simetricamente de um lado do planeta.

Quando os testes forem concluídos, caberá à Comunidade Europeia decidir se serão integrados na constelação do satélite, ressaltou a ESA.

Quatro primeiros satélites do sistema Galileu já haviam sido lançados anteriormente.

O sistema Galileu contará, ao todo, com 30 satélites. Vinte serão lançados de hoje até 2017, e seis outros serão acrescentados até 2020.

Os dois próximos satélites serão lançados em 27 de março.

 

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© AFP / UOL

Cientistas constroem torre maior do que a Eiffel no meio da Amazônia

A mais alta estrutura construída na América do Sul não é um arranha-céu e não é uma antena de comunicação.

Com 325 metros –um a mais que a torre Eiffel–, ficou pronta em janeiro no meio da floresta amazônica a torre do projeto ATTO (Amazon Tall Tower Observatory), em São Sebastião do Uatumã (AM), que servirá para estudar a interação entre a mata e o clima.

A torre é basicamente um espigão preso por cabos, instalados numa área 156 km ao norte de Manaus, sem nenhum centro urbano perto. De lá, seguindo para o norte, até o Atlântico, só existe mata.

Editoria de Arte/Folhapress
OBSERVATÓRIO FLORESTAL Como é a torre do projeto ATTO, usada para ciência atmosférica

A torre terá instrumentos em diferentes alturas para medir a concentração de gás carbônico, metano, óxido nitroso, ozônio e outros gases, além de estudar o fluxo de vapor d’água e de aerossóis (partículas sólidas e líquidas em suspensão), importantes na formação de nuvens.

Com instrumentos para medir força e direção do vento, os cientistas também buscam entender o papel da floresta no transporte de grandes massas de ar pela América do Sul.

Estimado em R$ 20 milhões, o projeto foi 50% bancado por verbas federais da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) captadas pelo Inpa (Instituto Nacional de pesquisas da Amazônia).

A outra metade veio da Alemanha, pelo MPIC (Instituto Max Planck de Química). A Universidade Estadual do Amazonas (UEA) abriu a estrada do rio Uatumã até o sítio do projeto. O traçado de 13 km já existia, aberto há três décadas por exploradores ilegais de pau-rosa (madeira usada na fabricação de perfume), mas foi preciso restaurá-lo, a um custo de R$ 1,8 milhão.

A logística de construir o ATTO não foi simples. A torre foi feita pela San Engenharia, de Curitiba, e segmentos de seis metros de altura foram transportados de caminhão e balsa do Paraná até a floresta, por 4.000 km.
Uma vez lá, a torre foi montada no chão e depois foi içada.

“No começo foi difícil içar a torre com guincho, porque queimou muito motor”, diz o técnico Mário Haracemko. “O desafio maior foi por os cabos dos estaios [sustentação], porque não podíamos derrubar nenhuma árvore. Só podar ramos para passar os cabos.”

TAPETE VERDE
A reportagem da Folha subiu os 108 lances de escada que levam ao topo da torre. O elevador não estava disponível. No alto, a vista da floresta se estende até o horizonte em todas as direções, e o rio Uatumã é a única coisa que se vê além do tapete verde separando a terra do céu. A 325 metros de altura, as árvores maiores, de 45 metros, parecem ramos de brócolis.

Mas não é só pela vista que os cientistas decidiram investir na torre. O LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera e Atmosfera na Amazônia), projeto do qual o ATTO faz parte, discutia a necessidade de uma estrutura assim desde o fim da década de 1980. Em 2007, os alemães chegaram com a proposta.

“O LBA possui outras torres, com alturas entre 50 m e 80 m, que são capazes de monitorar fenômenos de interação entre floresta e atmosfera num raio de 10 km”, diz o físico Paulo Artaxo, da USP, que ajudou a articular o projeto. “O ATTO será capaz de fazer isso num raio de 1.000 km.”

Esse incremento permitirá agora dados representativos da Amazônia inteira, que tem 3.000 km de leste a oeste.

A torre foi inaugurada em fevereiro ainda sem instrumentos. A Folha presenciou a instalação do único dispositivo elétrico ligado até agora: uma lâmpada de segurança no topo para alertar aviões. Ao longo deste ano, serão instalados os aparelhos científicos.

“Queremos colocar a torre para funcionar uns 30 anos, no mínimo, e acompanhar os impactos da mudança climática na floresta”, diz Antônio Manzi, pesquisador do Inpa.

O alemão Christopher Pöhlker, do MPIC, que opera uma torre secundária do ATTO, de 80 metros, lembra que “num lugar assim, sempre há coisas que dão errado”. Ele é um dos responsáveis por ter “ideias criativas para consertá-las”.

Coisas inesperadas são, por exemplo, quedas de árvores. Uma já destruiu um transformador de energia. Mais raramente, há encontros com animais. “Um dia desses tivemos uma onça na nossa frente.”

Roteiro, fotografia e montagem DOUGLAS LAMBERT

Para ver a matéria original, clique aqui.

© Copyright Folha de São Paulo.

Empresa brasileira transforma água do mar em potável e produz 16 mil litros por dia

Água tem mais minerais que a comum, e processo é feito no litoral de SP.

Em meio à grave crise hídrica que atinge o estado de São Paulo, muitas pessoas pensam em alternativas para não ficar sem água. Uma empresa em Bertioga, no litoral de São Paulo, criou um método próprio de dessalinização da água do mar que, além de remover o sal, consegue manter 63 minerais importantes para o organismo humano presentes no mar.

O G1 testou o produto com alguns moradores da Baixada Santista. O resultado, com a reação das pessoas, pode ser visto no vídeo que abre a reportagem.

Água do mar é tratada em Bertioga, SP, e fica pronta para ser consumida (Foto: Mariane Rossi/G1)

O G1 visitou também a sede da fábrica e acompanhou todo o processo de dessalinização. A água já foi até engarrafada, mas os empresários aguardam a liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para começar a vender o produto no Brasil. Segundo um estudo de uma pesquisadora ligada à Universidade Paulista (Unip) e Universidade de São Paulo (USP), a água não oferece riscos e pode ser consumida normalmente.

Um dos responsáveis pela criação do processo de dessalinização, o empresário Annibale Longhi conta que buscava também uma forma de recuperar os minerais perdidos no dia a dia por meio da água. “Uma célula em equilíbrio deve conter cerca de 100 minerais. Ao longo da vida, você vai perdendo isso.” Por isso, Longhi começou a fazer experiências para encontrar um produto que não tivesse sal em grande quantidade e que fosse saudável.

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Empresário e engenheiro criaram o sistema (Foto: Mariane Rossi/G1)

Após um longo período de análises, ele descobriu que o mar guarda os minerais necessários para o corpo. “Na água do mar encontramos 63 minerais que ajudam o sistema celular. A água vendida nos supermercados tem, no máximo, 12 minerais. Porém, para o corpo ficar saudável, precisa de muito mais”, explica.

Produção da água
Com os resultados em mãos, o empresário, junto com o engenheiro Silvio Paixão, criou um laboratório piloto para desenvolver projetos e começar os testes.

Há três anos, eles montaram um sistema de dessalinização da água. Ela é retirada do mar, a cerca de 30 metros de profundidade, e passa por um processo de tratamento de quatro fases. Metade da água retirada do mar se transforma em potável. A outra metade volta para o oceano, com concentração maior de sal. Esta água é descartada em vários pontos para não comprometer o meio ambiente (veja o vídeo no fim da reportagem).

Água do mar passa por tratamento e fica potável (Foto: Mariane Rossi/G1)

Após o tratamento, a água permanece com os 63 minerais naturais que o corpo necessita. De acordo com Paixão, o pH 7,5 da água do mar é mantido. O pH é a medida que indica a acidez, a neutralidade e a alcalinidade de uma solução. Sete é o valor neutro. Um pH mais perto de 0 indica acidez e mais perto de 14, alcalinidade.

“Como nós não adicionamos nada, só retiramos o cloreto de sódio, o pH permanece o mesmo. O pH é uma coisa muito importante quando se trata de saúde humana. Essa água nunca vai trazer problemas para o corpo. O rim e o fígado funcionam até melhor”, afirma.

No laboratório em Bertioga, é possível produzir uma grande quantidade das garrafas de água. A fábrica tem condições de fazer até 33 mil garrafinhas por dia, totalizando 16 mil litros do produto, o que daria cerca de 1 milhão de unidades por mês. Enquanto uma garrafa de água mineral com 300 ml custa, em média, R$ 1,50, em Santos, uma garrafinha de água dessalinizada pode chegar a custar duas ou três vezes mais.

Pesquisa
A biomédica Lucia Abel Awad, com o apoio da USP e da Unip, realizou um estudo de cerca de três anos sobre a água fabricada em Bertioga. “Primeiro fizemos testes em camundongo e ratos, com protocolos que obedecem aos critérios da Anvisa. Avaliamos questões hematológicas, renais, hepáticas e sinais clínicos. Fizemos todos os testes para saber se a água produzia algum efeito maléfico ou benéfico no organismo desses animais. Os animais não apresentaram problemas. Concluímos que a água não tem efeito tóxico e que pode ser tomada sem restrições”, diz ela.

Aparelho mede a qualidade da água (Foto: ariane Rossi/G1)

Por enquanto, os empresários já têm a autorização da Anvisa para produzir e exportar a água. Segundo eles, há compradores na Alemanha (Galeria Kaufhof) e na França (La Grande Epicerie), onde o produto também passa por análise, de acordo com a legislação europeia.

“Já passamos pelos processos de análise química e microbiológica. Estamos na fase da radioatividade. Passando por isso, nosso produto será aceito em toda a Europa”, explica Paixão.

No Brasil, a água 63 Water Vital Minerals está sob análise da Anvisa para a comercialização. A pesquisa realizada pela universidade foi incluída na série de documentos e exames laboratoriais solicitados pelo órgão. “Superamos a demanda da Anvisa e estamos aguardando a análise. Entregamos todo esse material no começo de 2014 e estamos esperando a aprovação”, afirmou o engenheiro.

© Copyright Globo Comunicação e Participações S.A

A água que vem do ar

Na falta de chuvas, ninguém precisa passar sede. E nem depender da dessalinização da água do mar, um processo caro e de logística complexa. Conheça a região no meio do deserto chileno que tira água do ar, sem gastar um pingo de energia

Entre a longa Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, no país mais esticado do mundo, está o maior deserto latino-americano, o chileno Atacama. A aridez domina a região e os municípios próximos – são quase 1.500 km de extensão onde a média de chuvas é de 0,1 mm ao ano, com áreas onde a água fica sem cair por séculos. Nesse mar de sequidão, fica a região de Coquimbo, no município de Chungungo, que é banhado pelo mar, e onde choveu apenas cinco vezes em todo ano de 2013. Na área, a média histórica de chuvas é de apenas 100 mm ao ano – contra 1.500 mm em São Paulo, por exemplo. Mas, ao contrário da capital paulista, aqui não falta água – é possível tirá-la do ar.

O que acontece em Coquimbo é que faltam chuvas, mas sobram nuvens hiperúmidas. São as “nieblas costeras“, que se formam sobre a orla, se movem em direção ao continente e acabam aprisionadas por uma serra, num fenômeno chamado de camanchaca, as “chuvas horizontais”. A camanchaca acontece em condições muito específicas de geografia, clima e correntes marítimas, e é bem comum ao longo do litoral peruano e chileno. Essa neblina é composta por minúsculas gotas de água, que, de tão leves, se mantêm suspensas no ar. Se a nuvem encontrar algum tipo de obstáculo, as partículas de água se chocam umas com as outras e começam a se concentrar. Alcançam, então, peso suficiente para cair, virar gotas de água, e deixar um rastro de umidade por onde passam.

Nas regiões em que o fenômeno acontece, é comum encontrar árvores eternamente encharcadas e animais com os pelos molhados o tempo todo. A umidade é visível por aqui. Nas altitudes entre 600 e 1.200 metros, onde o fato é mais intenso, a vegetação é abundante e frondosa – ao contrário das zonas em que as neblinas costeiras não acontecem, e que têm solo seco e pouca flora. Foi observando esse contraste que, há 50 anos, pesquisadores da Universidad de Chile tiveram uma ideia: se a água não cai das nuvens, será que daria para pegá-la de dentro delas? Assim nasceu a ideia dos atrapanieblas (em português, algo como “capta-nuvem”) – artefatos criados para tirar, literalmente, água do ar.

As engenhocas são simples: basta esticar malhas de polietileno de alta densidade (parecidas com as que são usadas para proteger plantações do sol), de até 150 metros de largura, entre dois postes de madeira ou aço. A neblina passa pela malha, mas os fios de plástico retêm parte da umidade, que condensa, vira água e escorre até uma canaleta que leva a um reservatório (veja mais no info). O negócio é barato e eficiente: cada metro quadrado da malha capta, em média, 4 litros de água por dia, e um atrapaniebla de 40 m² custa entre US$ 1 mil e 1.500.

Para melhorar, o modelo é 100% sustentável. Não atrapalha a flora e a fauna, e funciona durante quase o ano todo, o que torna possível planejar a produção de água. Mas não para por aí: a verdadeira vantagem é que os atrapanieblas não utilizam luz elétrica. Diferentemente de outros métodos caros de obtenção de água em regiões secas, como a dessalinização da água do mar, eles não precisam de energia para funcionar. O vento trata de espremer as nuvens pelas malhas, e a gravidade cuida de carregar a água até os baldes. Perfeito.

Infelizmente, o projeto não é replicável no mundo todo por causa das condições necessárias de clima e temperatura. Mas países como México e Peru também utilizam a técnica. No árido Estado de Querétaro, na região central do México, e nas secas áreas costeiras do Peru – que inclui a capital Lima, onde a média anual de pluviosidade é de menos de 10 mm, mas cuja umidade relativa do ar chega a 98% -, o projeto já funciona em larga escala. O maior complexo de malha do mundo, contudo, localiza-se em Tojquia, Guatemala: são 60 captadores que, ao todo, compõem uma rede de 1.440 m² e captam quase 4 mil litros de água diariamente, abastecendo cerca de 30 famílias. Sem gastar energia.

CERVEJA DO CÉU
Em Chungungo, que não parou de crescer desde a década de 1980, as malhas não são mais suficientes para abastecer toda a população, e a prefeitura teve de recorrer a uma estação de dessalinização do mar para não faltar água. Por isso, há diversos estudos que tentam aumentar a produtividade dos atrapanieblas por aqui. Um deles é o Fog Finder System, uma superfície de 1 metro quadrado com diversos tipos de malhas e sensores que identificam o fluxo do vento e das gotas de água. Com ele, é possível descobrir a melhor maneira de dispor os fios da malha e quais tecidos são mais eficientes. Ele já descobriu, por exemplo, que o polipropileno, atualmente o material mais usado no Chile, é um dos que menos captam água.

Outras soluções para a produtividade são mais simples, como o atrapaniebla Cecelic, desenvolvido no México. Em vez de usar uma malha retangular, o Cecelic é uma superfície triangular com a ponta para cima. Nela, a água não vai para uma canaleta, mas direto para dois reservatórios, um em cada vértice do triângulo. O formato evita o rompimento da malha e, segundo os desenvolvedores, capta mais água: de 6 a 22 litros por dia para cada 1,5 m² de malha. “Sonho com o dia em que o método de captar água das nuvens possa competir com o sistema de dessalinização, que requer muita energia e não é compatível com o meio ambiente”, diz Pilar Cereceda, professora do Instituto de Geografia da Universidad de Chile e uma das maiores especialistas chilenas no assunto.

Aqui em Coquimbo, a água que vem das nuvens – que é 100% potável – é usada para outros fins. Em Majada Blanca, a 25 km de La Serena, principal cidade da região, mora Pedro Hernández Pérez, que pesquisa o aumento de eficiência dos atrapanieblas – e usa a água para cultivar uvas e azeitonas. Todas as semanas, ele percorre a pé um trajeto de 2 km de subida íngreme para medir a capacidade de captação dos tecidos. Além das duas grandes malhas que coletam a água para seu cultivo, uma tradicional de polietileno e outra de polipropileno em formato tridimensional, há pequenas telas com outros tipos de material, como o alumínio, em fase de teste. O formato tridimensional é especialmente interessante porque diminui a área de “sombra” do tecido, os pedaços de fio que não entram em contato com as gotículas de água. O sonho de Pedro Hernández é produzir vinho e azeite com a água da neblina. “No momento estou fazendo testes com diferentes tipos de uvas, para saber qual se adapta melhor ao clima e ao terreno, mas espero começar a fabricar meu próprio vinho em breve”, diz.

Mas a utilização mais original da água que vem do céu acontece em Peña Blanca, 100 km mais ao Sul. Alimentada pela água de apenas duas pequenas malhas montadas no topo de uma de suas montanhas, funciona uma cervejaria artesanal. A Cervejaria Atrapaniebla tem três tonéis e uma câmara fria e produz 24 mil litros da bebida por ano. A boa Atrapaniebla, nome do rótulo, é uma Scottish Ale produzida com 100% de água captada do ar. “Sem fontes de água na quantidade que precisávamos, tivemos que apelar para as nuvens. Além disso, a água da camanchaca é de excelente qualidade, e dá particularidades especiais à nossa cerveja”, diz Miguel Carcuro, dono e desenvolvedor da cervejaria. É a desculpa que você precisava para tomar cerveja – dessa vez, uma que caiu, literalmente, do céu.

DANÇA DA CHUVA
O clima no norte do Chile é dominado pelo Anticilone do Pacífico. Formado sob alta pressão atmosférica, ele não permite que o ar suba e gere chuvas. Assim, o clima árido predomina. Por outro lado, a alta pressão produz nuvens formadas por gotas tão minúsculas de água que não têm peso suficiente para cair.

1. As nuvens percorrem longas distâncias no oceano, formando uma massa de ar quente e úmido que condensa em contato com o frio do continente. As montanhas na costa então aprisionam as nuvens.
2. Os atrapanieblas devem ficar perpendiculares ao vento, para receber a nuvem de frente e entrar em contato com mais umidade. Além disso, devem estar próximos da costa, para minimizar a perda de água que evapora sobre o continente.

3. Quando a névoa passa pelo atrapaniebla, a malha captura as gotículas de água, que se aglomeram na tela até formarem uma gota maior, com peso suficiente para escorrer até uma canaleta.
4. Desse pequeno recipiente, a água desce para uma tubulação vedada até os reservatórios localizados na base da montanha (ou próximos às casas), onde fica pronta para ser usada.

© Copyright Revista Superinteressante

Especialistas defendem uso de água de esgoto tratada para combater crise

No entanto, como medida mais imediata, a economia de água é imprescindível

Em meio à maior crise hídrica registrada no Estado de São Paulo, soluções e paliativos vão surgindo. Segundo o professor Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp (FEC), Edson Aparecido Abdul Nour, o tratamento de esgoto, transformado em água de reuso, não é novidade. O processo já é utilizado para uso em indústrias, lavagem urbana e irrigação. “Geralmente quando se faz isso já tem comprador específico, tanto que a legislação responsabiliza o comprador pelo uso final. É um controle. Em alguns processos na indústria se usa muita água e a água de reuso acaba sendo mais barata do que a do abastecimento normal”, explica o professor.

O professor, especialista em saneamento e meio ambiente, destaca a iniciativa de São Paulo como vantajosa. Para ele é uma questão de saneamento básico, assunto pouco discutido, mas muito necessário em cidades brasileiras. “Em questão de saneamento muita coisa precisa ser feita. Somos extremamente atrasados em termos de resolver o problema do saneamento básico de uma forma geral”, explica.

Segundo ele, o estado de São Paulo ainda sai na frente em algumas iniciativas, mas ainda há um déficit muito grande das estações de tratamento de esgoto. “Então qualquer tipo de ação é importante, é o tipo de política de estado que deveria ter uma postura melhor do governo, não só de São Paulo, mas de outros estados também”.

A nova medida, adotada pelo governo de São Paulo, tem como objetivo diminuir a pressão por demanda hídrica no sistema da Cantareira

 Para o também professor da FEC – Unicamp, especialista em recursos hídricos, Antônio Carlos Zuffo, a atitude imediata, para sanar os problemas resultantes da estiagem, é a economia de água. Segundo ele a situação é crítica. “De imediato agora é a economia de água. É previsto que nessa segunda-feira a primeira parcela do volume morto chegue ao fim, se não chover entre sábado e domingo. O nível da Cantareira tem diminuído 0,11% por dia”, afirma.

Assim como Edson, Zuffo destaca a iniciativa do governo de São Paulo como algo favorável, devido à crise hídrica no estado. “Estamos numa situação onde não temos mais de onde tirar a água, temos que nos adaptar de outra forma. A água de reuso vai entrar na bacia ou não vai ter como atender essa demanda”.

Segundo o professor da Unicamp, o governo de São Paulo pretende lançar na bacia do Rio Guarapiranga a água resultante do esgoto tratado. A intenção é que com essa carga de água tratada a disponibilidade hídrica da bacia aumente, diminuindo a dependência do sistema da Cantareira, que atualmente já está no segundo volume morto para tender a necessidade de abastecimento.

O professor explica que essa água lançada na bacia do Guarapiranga vai ser tratada como é feito normalmente com a água do rio, que abastece a represa de mesmo nome. ” O efluente que hoje é descartado vai para um grande reservatório e lá ele vai passar por uma redução bioquímica e você tem a expectativa de diminuir o lançamento bruto de esgoto, melhorando a situação da qualidade de água do Guarapiranga, melhorando o disponibilidade hídrica”.

Segundo Zuffo, o pior seria continuar com a atual situação de despejo de esgoto bruto. A água de reuso despejada melhora a qualidade da água do rio, que já recebe em algum ponto o esgoto bruto da cidade de São Paulo. “Muitas vezes, nos efluente, o esgoto é jogado na forma bruta e essa água é poluída. Para você falar de reuso, de que a água não pode ter qualidade porque já foi esgoto, o que é feito hoje no Guarapiranga é muito pior, são vários lançamentos de esgoto bruto nas águas. O tratamento dessa água fica muito mais caro, por causa da concentração de fósforo e nitrogênio. Se você faz o tratamento do efluente e essa água é lançada no rio, ela recebe um tratamento terciário e depois essa água é captada para o abastecimento. Isso melhora a qualidade da água”, explica o professor da Unicamp.

Zuffo destaca que a economia de água é uma medida paliativa, porém necessária nesse momento de crise hídrica. “O que dá para aprender com essa crise é que devemos tratar os efluentes desses locais poluídos. Lembrando a população que essas últimas chuvas não vão surtir o efeito desejado. O sistema da Cantareira vai continuar usando o volume morto por enquanto, então as pessoas tem que continuar com a economia de água”. O professor critica também a falta de informação oficial vindo do próprio governo de São Paulo, apesar da iniciativa da construção das estações de tratamento. As campanhas que existem são ou das ONGs ou das redes sociais, não tem nada mais expressivo nesse sentido, vindo de fontes oficiais do governo. A postura é de negação da crise hídrica”.

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