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Veja os 10 pontos mais comentados da ‘cúpula da reconciliação’

1. O aperto de mãos entre os presidentes de Estados Unidos e CubaO presidente dos EUA  Barack Obama cumprimenta o presidente de Cuba Raul Castro durante encontro na Cúpula das Américas na Cidade do Panamá (Foto: Jonathan Ernst/Reuters)
Ocorrido “casualmente” na noite de sexta-feira durante a chegada dos líderes à cerimônia de abertura da Cúpula, os 10 segundos de “interação” entre Barack Obama e Raúl Castro entrarão para a história como a reconciliação mais esperada do continente.

2. O enfrentamento entre Estados Unidos e Venezuela
Em uma cúpula marcada pelo “início do fim da Guerra Fria”, como disse o chanceler chileno, Heraldo Muñoz, sobre o reatamento das relações entre Washington e Havana, a intensificação das tensões entre Estados Unidos e Venezuela se tornou a preocupação de muitos dirigentes no Panamá.

3. O passeio de Nicolás Maduro por El Chorrillo
Não bastou ao presidente da Venezuela fazer um passeio pelo popular bairro panamenho. Ele também apadrinhou a reivindicação de seus moradores para que Obama peça perdão pela invasão do Panamá de 1989 e indenize as vítimas da intervenção.

4. Os ‘panelaços’ contra Maduro
Os moradores de pelo menos sete edifícios próximos do centro de convenções que recebe a Cúpula das Américas, muitos deles venezuelanos, protestaram duas vezes, durante a chegada de Nicolás Maduro à cerimônia de abertura do evento e durante seu discurso na sessão plenária, com sonoros ‘panelaços’ que foram ouvidos até dentro do centro de imprensa.

5. As brigas entre dissidentes e governistas cubanos
Uma das atividades paralelas da Cúpula, o Fórum da Sociedade Civil, foi marcada pelos confrontos físicos entre os delegados governistas cubanos e opositores, e a polícia panamenha teve que intervir em várias ocasiões para pôr fim às brigas.

6. A Cúpula dos Povos Indígenas Abya Yala
A realização da V Cúpula dos Povos Indígenas Abya Yala, paralela à VII Cúpula das Américas, permitiu que as comunidades indígenas reivindicassem um maior protagonismo no mundo político e econômico do continente.

7. O jogo de futebol de Evo Morales
A paixão do presidente boliviano pelo futebol é bem conhecida, e Morales aproveitou sua presença na cúpula paralela dos Povos para jogar uma partida com líderes indígenas da região, na qual mostrou seu talento e marcou quatro gols.

8. A ausência da presidente Bachelet
A presidente do Chile, Michelle Bachelet, é a única líder da região que não foi à histórica “cúpula da reconciliação” devido às graves inundações que afetaram o norte de seu país.

9. A chegada de “The Beast”
Em uma cidade como a capital panamenha, que convive com grandes congestionamentos, a chegada de “The Beast”, a limusine blindada e com avançadas tecnologias que é utilizada pelo presidente americano em todos os seus deslocamentos terrestres, se transformou em tema de conversas de muitos motoristas panamenhos.

10. A ausência de escândalos por parte do Serviço Secreto de Obama
Na última Cúpula das Américas, na cidade colombiana de Cartagena de Indias, em 2012, 12 agentes do Serviço Secreto americano, encarregados de proteger o presidente, foram acusados de levar prostitutas a seus hotéis. No Panamá, por enquanto, os agentes de Obama mantiveram as calças no lugar.

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Obama diz que ainda não decidiu se retira Cuba de lista de terrorismo

Afirmação foi dada em entrevista coletiva após encontro histórico.

Líderes de EUA e Cuba se encontram pela 1a vez em mais de 50 anos.

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Obama e Castro têm encontro histórico na Cúpula das Américas

Reunião ocorreu em clima cordial entre os dois líderes e com promessas para o futuro de Cuba e EUA

Obama e Castro apertam as mãos em encontro histórico na Cúpula das Américas – Pablo Martinez Monsivais / AP
 CIDADE DO PANAMÁ — Os presidentes dos EUA, Barack Obama, e de Cuba, Raúl Castro, se reuniram há pouco em uma sala privada nos bastidores da VII Cúpula das Américas e voltaram a apertar as mãos. O momento foi um marco das relações interamericanas: trata-se do primeiro encontro entre líderes dos dois países desde antes da Revolução de janeiro de 1959, ou seja, há mais de 56 anos.

Os dois líderes falaram brevemente à imprensa, após o encontro a portas fechadas, acompanhados de seus principais assessores. Convergiram na avaliação de que há muito trabalho a fazer para o restabelecimento pleno das relações diplomáticas, mas asseguraram que as divergências que existem entre Washington e Havana não impedem que os dois países venham a concordar no futuro.

Obama, porém, não anunciou a remoção de Cuba da lista de Estados que apoiam o terrorismo. Esta é a principal demanda cubana nas negociações da retomada das relações diplomáticas, porque será essencial à reintegração financeira e comercial global da ilha. A revisão já foi encerrada pelo Departamento de Estado americano, mas a recomendação final a Obama ainda depende de sinal verde de outras agências federais. A expectativa era que o anúncio seria feito na Cúpula.

— Este é evidentemente um encontro histórico. Era hora de tentarmos uma coisa nova — afirmou Obama. — Ao longo do tempo, é possível virar a página e desenvolver um novo relacionamento entre nossos dois países (…) Estamos na posição de caminhar em direção ao futuro.

O presidente americano reconheceu que há profundas e significativas diferenças entre EUA e Cuba. Por exemplo, os americanos continuarão se pronunciando sobre questões de direitos humanos e os cubanos manifestarão preocupação com políticas dos EUA. Raúl Castro sorriu, consentindo.

— Podemos discordar com o espirito de respeito — afirmou Obama.

Raúl falou em seguida, em espanhol, e disse que concordava com o que Obama havia falado.

— Estamos dispostos a conversar sobre tudo, mas precisamos ser pacientes, muito pacientes — afirmou o cubano. — É possível que a gente discorde em algo hoje sobre o qual concordaremos amanhã.

Raúl repetiu Obama, afirmando que Cuba e EUA podem ter diferenças, mas “com respeito às ideias dos outros”. O cubano brincou, dirigindo-se aos demais integrantes das duas delegações, que “era melhor que ouvissem seus líderes”. Obama riu.

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Maduro ‘estende mão’ a Obama em cúpula e é alvo de novo ‘panelaço’

Presidente venezuelano convidou líder dos EUA ao diálogo.
País latino foi qualificado como uma ‘ameaça extraordinária’ à segurança.

Presidente venezuelano, Nicolas Maduro, durante a abertura da Cúpula das Américas, no Panamá, nesta sexta (10) (Foto: REUTERS/Carlos Garcia Rawlins)
Presidente venezuelano, Nicolas Maduro, durante a abertura da Cúpula das Américas, no Panamá, nesta sexta (10) (Foto: REUTERS/Carlos Garcia Rawlins)

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, convidou seu colega norte-americano, Barack Obama, ao diálogo, durante seu discurso na Cúpula das Américas, realizada no Panamá neste sábado (11).

“Eu estendo minha mão para resolver os assuntos” entre Estados Unidos e Venezuela, assinalou, acrescentando que os Estados Unidos devem retirar o “decreto desproporcional” contra seu país.

Maduro disse ainda que Obama, “cometeu uma agressão” com seu decreto sobre a “ameaça” que a Venezuela representaria a seu país, mas afirmou que ele “não é” como seu antecessor na Casa Branca, George W. Bush.

Para o presidente venezuelano, “não é suficiente” que Obama tenha dito que não considera a Venezuela uma ameaça e cobrou que o líder americano volte atrás em seu decreto “ameaçador”, o qual qualificou como “irracional e desproporcional”.

Panelaço
Moradores de edifícios próximos ao complexo que recebe a Cúpula das Américas fizeram neste sábado, pelo segundo dia consecutivo, um sonoro “panelaço” quando Maduro tomou a palavra na sessão plenária, segundo a agência EFE.

Venezuelanos fazem panelaço contra o presidente Nicolás Maduro parte da Cúpula das Américas, no Panamá (Foto: REUTERS/Carlos Garcia Rawlins)
Venezuelanos fazem panelaço contra o presidente Nicolás Maduro parte da Cúpula das Américas, no Panamá (Foto: REUTERS/Carlos Garcia Rawlins)

O protesto foi realizado por moradores de pelo menos sete edifícios vizinhos ao centro de convenções Atlapa e foi escutado até dentro das instalações do local.

Além de bater panelas, muitos moradores gritavam “Fora Maduro” e agitavam bandeiras venezuelanas. Esse tipo de protesto já havia sido realizado na noite de sexta-feira, durante a chegada de Maduro para a abertura oficial da VII Cúpula das Américas.

A Venezuela se transformou na pedra do sapato desta Cúpula das Américas, na qual tentou introduzir em um documento já pactuado um parágrafo de condenação às medidas executivas do governo dos Estados Unidos contra o país sul-americano.

Na terça-feira (8), o conselheiro do departamento americano de Estado, Thomas Shannon, foi a Caracas para se reunir com Maduro, em busca por um acordo para a Cúpula das Américas.

A visita de Shannon ocorreu no momento em que Maduro realiza uma campanha nacional e internacional para exigir que Obama anule o decreto de março passado que qualifica a situação da Venezuela como uma “ameaça extraordinária” à segurança dos Estados Unidos.

A Venezuela vive uma polarização política desde o início de 2014, quando uma onda de protestos contra Maduro deixou 43 mortos, centenas de feridos e milhares de detidos, incluindo o líder opositor Leopoldo López, acusado de fomentar a violência nas manifestações.

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Obama: Mudanças em relação a Cuba abrem uma nova era no hemisfério

Presidente discursa antes de esperado encontro com Raúl Castro

Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, destaca reaproximação com Cuba em discurso na Cúpula das Américas, no Panamá – JONATHAN ERNST / REUTERS

CIDADE DO PANAMÁ — O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou neste sábado que a reaproximação com Cuba marca o início de uma nova era no hemisfério e nas relação entre os povos dos dois países. A declaração, na primeira sessão plenária da Cúpula das Américas, na Cidade do Panamá, vem antes de um esperado encontro entre o líder americano e o presidente cubano, Raúl Castro.

— Os EUA não ficarão presos ao passado. É a primeira vez que em mais de meio século que serão restabelecidadas formalmente as relações diplomáticas — discursou Obama. — Nunca antes as relações com a América Latina foram tão boas.

Olhando para Raúl Castro, o presidente chamou atenção para as diferenças entre EUA e Cuba, mas ressaltou que era preciso aproveitar o bom momento.

— Penso que não é segredo que continuarão existindo diferenças entre nossos países, mas acredito que se conseguirmos seguir esse movimento adiante, serão criadas novas oportunidades — insistiu o presidente americano. — Eu acredito firmemente que podemos aproveitar o momento para abrir uma nova era nas relações bilaterais e hemisféricas.

Durante seu pronunciamento, Obama propôs US$ 1 bilhão para ajudar os países da América Central e anunciou que pretende impulsionar o intercâmbio entre estudantes da América Latina e os EUA.

RAÚL ELOGIA OBAMA

Fortemente aplaudido, o presidente cubano discursou depois de Obama. Ele começou sua intervenção dizendo que “já era hora de eu falar aqui em nome de Cuba”. Castro arrancou risos entre os presidentes quando afirmou que tinha mais tempo para falar, já que não havia participado das reuniões anteriores.

— Já era hora de eu falar, me devem 48 minutos pelas outras Cúpulas — brincou Castro, antes de rasgar elogios a Obama. — O presidente Barack Obama é um homem honesto e isso se deve à sua origem humilde. Dez presidentes anteriores a Obama têm dívidas com Cuba, menos o presidente Obama.

Na sexta-feira, antes da abertura oficial da cúpula, os líderes cumprimentaram-se brevemente. O encontro previsto pra este sábado será o contato de mais alto nível entre os dois países desde antes da Revolução de 1959, ou seja, há mais de 56 anos.

Enquanto Obama deve levantar a questão da reforma política em Cuba, Raúl está buscando um fim do embargo comercial dos EUA e a retirada do país da lista de Estados que apoiam o terrorismo. Cuba foi incluída na lista pelo Departamento de Estado dos EUA em 1982, e a exclusão é fundamental para reintegração cubana ao comércio e aos sistema financeiro internacionais.

DILMA DEFENDE FIM DO EMBARGO

Em seu discurso na Cúpula, a presidente Dilma Rousseff elogiou a iniciativa de Obama de iniciar o processo de reaproximação com Cuba, segundo ela “um dos últimos vestígios da Guerra Fria”, mas condenou a sanção dos Estados Unidos à Venezuela.

De acordo com Dilma, o bom momento das relações entre os paises americanos não admite medidas unilaterais. A declaração foi feita neste sábado, na sessão plenária da VII Cúpula das Americas, a primeira com a presença de Cuba. Dilma defendeu ainda o fim do embargo dos EUA à ilha caribenha.

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Raúl Castro estreia na Cúpula: ‘Já era hora de eu falar aqui’

Presidente cubano elogiou Barack Obama e pediu apoio dos líderes do continente para derrubar o embargo comercial

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O presidente cubano, Raúl Castro, participa pela primeira vez da Cúpula das Américas – AFP/RODRIGO ARANGUA

CIDADE DO PANAMÁ — Sob aplausos entusiasmados dos demais 34 chefes de Estado e governo quando teve seu nome anunciado, o presidente de Cuba, Raúl Castro, fez seu histórico discurso na VII Cúpula das Américas, ao qual o país comparece pela primeira vez. É o marco do retorno cubano à comunidade interamericana. Ele discursou em seguida do presidente dos EUA, Barack Obama, que reafirmou o compromisso com o pleno restabelecimento das relações diplomáticas entre Washington e Havana.

Muito bem-humorado, Raúl Castro foi apresentado pelo presidente do Panamá, Juan Carlos Varela, e declarou ao microfone, para risadas e aplausos dos demais líderes regionais:

— Já era hora de eu falar aqui!

Conhecido, como o irmão Fidel Castro, pelos discursos longos, Raúl disse que era um “estranho esforço” ter que resumir sua fala aos 8 minutos recomendados pela organização do evento, mas afirmou que iria tentar, arrancando novamente risos. E então provocou gargalhadas e aplausos mais entusiasmados dos líderes, ao emendar:

— Mas como vocês me devem pelo menos seis Cúpulas, eu vou pedir permissão ao presidente Varela para me estender um pouquinho.

Em seguida, Raúl começou a fazer um extenso histórico da luta do povo cubano pela independência e soberania, o apoio dos EUA às forças armadas e repressoras na ilha nos séculos 19 e 20 e depois do passo a passo da Guerra Fria. Dedicou-se a esta parte por mais de 20 minutos.

Porém, Raúl Castro elogiou o presidente dos EUA, Barack Obama, não só pelo passo de retomar as conversas com Cuba após 53 anos, mas pelo seu empenho em iniciar uma discussão no Congresso americano para que seja derrubado o embargo econômico que “continua prejudicando o povo cubano”.

— Temos que continuar apoiando o presidente na sua intenção de eliminar o bloqueio — disse Raúl. — Temos que agradecer ao presidente Obama, que também nasceu já com o embargo em vigor, e sua disposição de iniciar o debate com o Congresso.

Raúl notou a “origem humilde” de Obama, que tratou como qualidade, novamente levantando forte aplauso da plateia. E disse que soube deste passado lendo dois livros do presidente americano. Obama permaneceu de cabeça baixa, e esboçou leve sorriso.

— Mas ainda vou ler tudo com calma — disse, rindo, arrancando risos da plateia.

Em seguida, prometeu, rindo, terminar em breve o discurso, quando já tinha 32 minutos e meio dominando o microfone da sessão de trabalho dos chefes de estado e governo:

— Querem que eu corte pela metade, vou acelerar um pouco.

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Cúpula no Panamá expõe disputa de potências por rota marinha

Apoiado pelos EUA, governo anfitrião usa evento para promover Canal do Panamá e minimizar ameaças de via interoceânica que China constrói na Nicarágua.
Cidade do Panamá é espécie de Dubai das Américas (Foto: BBC Brasil)
Cidade do Panamá é espécie de Dubai das Américas (Foto: BBC Brasil)

No caminho para o hotel onde presidentes de multinacionais se reuniram nesta semana durante a Cúpula das Américas, na Cidade do Panamá, um edifício envidraçado em forma de parafuso se destacava em meio a gruas e outros arranha-céus.

A poucos metros da torre, sede panamenha do banco espanhol BBVA, operários davam os últimos toques a um shopping que terá lojas da Gucci e da Louis Vuitton.

O boom imobiliário na região, que se estende até a beira do Pacífico e vem tornando a Cidade do Panamá uma espécie de Dubai das Américas, é um dos trunfos do governo panamenho para influenciar empresários numa disputa que trava nos bastidores da cúpula.

O embate, que envolve o controle da rota marítima entre o Atlântico e o Pacífico, põe em lados distintos as duas maiores potências globais: Estados Unidos e China.

Hoje o único atalho para essa rota é o Canal do Panamá, escavado pelos Estados Unidos em 1914 e território americano até 1979. Mas a exclusividade da passagem está ameaçada pela polêmica construção de um canal na Nicarágua, que se iniciou em 2014 e é financiada por um empresário chinês.

Se concluído, o canal nicaraguense será a maior obra de engenharia do mundo, estendendo-se por 276 quilômetros. O empreendimento tem custo estimado de US$ 50 bilhões (aproximadamente R$ 154 bilhões), cerca de cinco vezes o valor financiado da hidrelétrica de Belo Monte. Ele permitirá a passagem de navios com até 25 mil contêineres, quase o dobro do limite do Canal do Panamá.

O governo nicaraguense espera que, a exemplo do ocorrido no vizinho centro-americano, o canal atraia uma série de investimentos, tornando a Nicarágua o principal centro logístico entre as Américas do Sul e do Norte.

O Panamá, porém, tenta preservar esse posto, apresentando-se aos empresários como um país mais moderno e seguro para investimentos que o vizinho. Os arranha-céus são o aspecto mais visível do vigor da economia panamenha, que cresceu 6,5% em 2014 (maior índice da América Latina) e deve manter o ritmo nos próximos dois anos.

O canal é considerado um pilar da economia do país: por causa dele e de benefícios fiscais e trabalhistas, dezenas de multinacionais – entre as quais Caterpillar, Dell e HP – optaram por instalar suas sedes latino-americanas na Cidade do Panamá.

Relações públicas
Os anfitriões têm usado a cúpula para promover seu canal e minimizar os riscos gerados pela iniciativa nicaraguense. Em discurso a empresários, o presidente da autoridade do canal panamenho, Jorge Quijano, disse que é possível que outras rotas marítimas surjam, mas que o Panamá “está preparado a fazer os investimentos necessários para continuar sendo a decisão óbvia dos nossos clientes”.

Há dois anos, o então chanceler panamenho, Fernando Núñez Fábrega, chegou a afirmar que “é mais fácil chegar à Lua do que construir um canal na Nicarágua”. A obra enfrenta uma série de desafios, como a escavação de dezenas de quilômetros em mata fechada.

Os panamenhos contam com o apoio dos Estados Unidos em seus esforços. O presidente americano, Barack Obama, visitou nesta sexta as obras de ampliação do canal panamenho e agradeceu o país aliado por administrá-lo.

Os Estados Unidos também vêm criticando a forma como o canal nicaraguense tem sido construído.Em evento no início do mês, a secretária assistente do Departamento de Estado americano para Hemisfério Ocidental, Roberta Jacobson, disse que falta transparência à obra e que o governo em Manágua deve responder a cidadãos nicaraguenses “que estão preocupados com questões ambientais e fundiárias.”

Na Nicarágua, teme-se que construção de canal desaloje moradores e cause problemas ambientais (Foto: BBC Brasil)
Na Nicarágua, teme-se que construção de canal desaloje moradores e cause problemas ambientais (Foto: BBC Brasil)Na Nicarágua, teme-se que construção de canal desaloje moradores e cause problemas ambientais (Foto: BBC Brasil)

Moradores de regiões que serão afetadas pela obra – entre os quais indígenas e pequenos agricultores – têm protestado contra o empreendimento. Eles dizem temer ser desalojados e não receber compensações adequadas.

Há também a preocupação de que o canal cause grande impacto ambiental, prejudicando especialmente comunidades que vivem da pesca ou do turismo no Lago Nicarágua, santuário ecológico que será atravessado pelo canal.

O governo em Manágua rebate as críticas e diz que a obra terá um plano robusto de compensações. Os estudos de impacto ambiental estão a cargo da consultoria britânica Environmental Resource Management.

Os questionamentos americanos devem ampliar o distanciamento entre Washington e Manágua. O presidente nicaraguense, Daniel Ortega, é um dos maiores desafetos globais dos Estados Unidos e com frequência acusa a Casa Branca de ter ambições “imperialistas” na América Latina.

Analistas avaliam que as preocupações americanas são mais abrangentes. Em artigo publicado em março, o professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel, diz que a obra pode “alterar a dinâmica regional” e dar a Pequim uma posição estratégica numa área que Washington considera seu quintal.

Para Stuenkel, os objetivos chineses em financiar o canal são mais geopolíticos do que comerciais. A Hong Kong Nicaragua Canal Development Investment Co (HKND), companhia chinesa a cargo da obra, terá o direito de operá-lo e de erguer portos, aeroportos, estradas e ferrovias ao longo do canal. A empresa firmou ainda um contrato para construir uma rede de telecomunicações no país.

Stuenkel afirma ainda que uma reforma recém-aprovada na Nicarágua pôs fim à proibição de que soldados estrangeiros transitem pelo país, o que abre o espaço para a construção de uma base militar chinesa no longo prazo.

Cautela e oportunidade
Presidentes de empresas presentes na cúpula expressaram cautela sobre a iniciativa nicaraguense. Para Ingo Plöger, presidente do Business Council of Latin America, empresários gostam de competição e recebem bem investimentos que lhes ofereçam alternativas para seus negócios.

“A questão é: existe disposição de fazer um canal dentro dos moldes ambientais corretos? A administração do canal será independente e terá a mesma competência que a do Canal do Panamá? Tenho minhas dúvidas”, ele afirma.

Ele questiona ainda se a China e a Nicarágua têm a estabilidade política necessária para levar a obra até o fim. Manágua diz que a construção durará cinco anos, mas especialistas avaliam que, dada a sua complexidade, o prazo dificilmente será cumprido.

Para Stanley Motta, presidente da companhia aérea panamenha Copa, “o canal nicaraguense ainda é uma aventura que se está tratando de financiar”.

“Ainda há um caminho muito longo para que ele se torne uma realidade”, diz.

Empresários e observadores parecem concordar num ponto: a conclusão da obra só ocorrerá se o governo chinês encampá-la oficialmente. Por ora, porém, Pequim tem mantido certa distância do empreendimento.

Para Oliver Stunkuel, da FGV, a postura dá aos chineses a possibilidade de recuar caso problemas logísticos e políticos relacionados à obra se mostrem insuperáveis.

Boom imobiliário é um dos trunfos panamenhos em disputa por rota interoceânica (Foto: BBC Brasil)
Boom imobiliário é um dos trunfos panamenhos em disputa por rota interoceânica (Foto: BBC Brasil)
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