Por que o norte encheu e o sudeste secou?

Para falar das mudanças climáticas, é preciso discutir escalas geográficas e ação humana

Em 2014, o clima surpreendeu todos os brasileiros. Enquanto no norte e sul do país choveu muito além do esperado, o sudeste sofreu com a seca e o esvaziamento das represas. O caso mais grave é o do Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de boa parte da cidade de São Paulo e sua região metropolitana.

Para 2015, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) previu chuvas ligeiramente abaixo da média nas regiões Norte e Sul e precipitações um pouco acima do normal nas regiões Centro-Oeste e Sudeste. Mas até meados de janeiro, a situação não era animadora. Pelo contrário: em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, as temperaturas bateram recordes, choveu pouco e longe dos reservatórios. A possibilidade de racionamento de água e energia nos grandes centros urbanos é cada vez mais concreta.

 

 

Não é simples abordar esse assunto quente com a turma. Primeiro, porque nem mesmo os cientistas têm certeza sobre o que está. Segundo, porque o tema é complexo. “É preciso deixar claro que o fenômeno ocorre em três escalas distintas: local, regional e global. É fundamental delimitar cada uma delas e mostrar como elas se influenciam”, afirma Sueli Furlan, professora de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

A sugestão é começar pela escala regional, pois é nela que estão os fatores que geraram as mais nítidas alterações climáticas. Os meteorologistas concordam que as chuvas de verão não chegaram à Região Sudeste porque uma bolha de calor de alta pressão “estacionou” sobre ela no verão do ano passado. Neste ano, há indícios de que o fenômeno possa se repetir. Geralmente, uma massa de ar quente tem baixa pressão atmosférica. Nesse caso, o contato dela com um fluxo de ar frio favorece a formação da chuva. Mas essa bolha tinha alta pressão, o que impedia a aproximação de ventos úmidos, já que o ar flui de áreas com mais pressão para outras com menos pressão.

Ninguém sabe explicar ao certo o que causou a formação dessa bolha e por que ela estacionou ali. Para investigar as hipóteses, é preciso mudar para a escala global. Uma possibilidade é propor aos alunos uma pesquisa em jornais e revistas sobre a situação do clima no planeta. “Vale lembrar que é preciso ter cuidado quando a mídia anuncia causas impactantes para alguma catástrofe. Desconfie, pois pode haver sensacionalismo ou explicações de não especialistas”, alerta Adriana Olivia Alves, professora de Geografia da Universidade Federal de Goiás (UFG).

A AÇÃO HUMANA MODIFICA O CLIMA
É provável que a pesquisa revele que eventos climáticos extremos são cada vez mais frequentes em todo mundo. Há uma série de fatores sociais e ambientais que os influencia. Nesse ponto, é importante sugerir que a turma debata o papel da atividade humana. A quantidade de gases causadores do efeito estufa lançada na atmosfera já é maior que a capacidade de absorção dessas substâncias pelo planeta: o aquecimento global chegou. Informações das agências americanas Nasa e Noaa, que monitoram os oceanos e a atmosfera, indicam que 2014 foi o ano mais quente da Terra desde o início das medições, em 1880. Não é um caso isolado: o século 21 tem nove das dez maiores médias de temperatura anuais, o que configura uma tendência de aumento.

Com o aumento de temperatura, a atmosfera procura um reequilíbrio diante da nova situação. “Essa busca se manifesta como uma agitação atmosférica, que resulta em fenômenos climáticos extremos: furacões cada vez mais fortes, tempestades, enchentes e secas”, explica Tércio Ambrizzi, professor de Ciências Atmosféricas da USP. Para o especialista, o aumento da temperatura da superfície do mar ao sul do Oceano Atlântico pode ter influenciado a bolha de calor na Região Sudeste, pois esses eventos não são isolados.

Uma ideia é propor que a turma analise notícias sobre a seca aqui e as nevascas acima da média nos Estados Unidos no mesmo período.

No momento de abordar a escala local, a ação humana novamente precisa ser debatida. Ela está por trás, por exemplo, do fenômeno das ilhas de calor, típico dos centros urbanos. Quando uma massa úmida passa por esses locais, o concreto e a poluição a jogam para o alto. O ar quente se resfria rapidamente, se condensa e gera fortes chuvas – que só têm causado transtorno, pois não enchem os reservatórios. É a chance, ainda, de esclarecer um mal entendido. “Uma ilha de calor é diferente da bolha de calor regional. A ilha tem influência restrita, não é capaz de mudar as condições atmosféricas regionais ou globais, já a bolha, sim”, afirma Adriana.

Se a ideia for apronfundar a abordagem da crise hídrica, é importante mostrar que a influência do homem se faz notar com força ainda maior. A falta de planejamento urbano, por exemplo, é um ponto crítico. “O concreto faz com que as bacias hidrográficas não consigam reter a água, mesmo que chova muito. Além disso, faltam opções de abastecimento: poderíamos ter mais águas se os rios não fossem poluídos”, diz Sueli.

Outra questão evidente é o desmatamento. Cada árvore mantém a umidade da sua localidade. Assim, a dizimação das florestas da Região Sudeste contribuiu muito para a seca. “A bolha de calor só prevaleceu porque não há floresta. Se houvesse, ela se dissiparia. É por isso que não chove na Cantareira, já que seu entorno é apenas pasto”, aponta o pesquisador Antônio Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Por tudo isso, economizar água acabou se tornando nossa única opção.

A CULPA É DO DESMATAMENTO?
Que as árvores são importantes para a manutenção da umidade e para o resfriamento do solo, não há dúvidas. Uma árvore grande pode transpirar mais de mil litros de água num único dia. Mas a seca na Região Sudeste levantou a hipótese de que a estiagem esteja sendo agravada pelo desmatamento na Amazônia. O raciocínio é o seguinte: ao derrubarmos as árvores da floresta, diminuímos o fluxo de umidade nos ventos do norte para o centro-sul (os chamados rios voadores”). Com isso, o sistema de chuvas estaria entrando em colapso. Pode acontecer.

Porém, os cientistas divergem ao avaliar se isso já está ocorrendo ou não. Você deve apresentar essa polêmica à classe. Para alguns, o desmatamento já seria suficiente para fazer minguar o fluxo de umidade. Outros sustentam que o sistema continua ativo – prova disso são as chuvas fortes no sul e no norte. Mas estão todos de acordo que o desmatamento na Região Sudeste – por exemplo, nas bordas do Sistema Cantareira – prejudica as chuvas no lugar certo.


A UMIDADE REGIONAL AMEAÇADA

1. Umidade do mar – O sol evapora a água do mar. Esse vapor é atraído para o continente pela baixa pressão atmosférica da floresta e vira chuva sobre a Amazônia.
2. A floresta atua – As árvores amazônicas absorvem parte da água da chuva e bombeiam à atmosfera ainda mais água em seu processo de transpiração. O fluxo de vapor ganha volume.
3. Paredão rochoso – O vento leva as nuvens e o vapor de água da floresta como um rio voador em direção aos Andes, mas ele não consegue ultrapassar a cordilheira e ruma para o centro-sul do país.
4. Bolha quente – No centro-sul, a massa de ar quente no verão tem barrado o ar úmido do norte do país e as frentes frias que vêm do sul. Resultado: chove bem menos que o esperado.

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