Alô? Tem alguém aí?

Imagem: Swinburne Astronomy Production

Estava lendo um artigo interessante esses dias que me deixou encafifado. Olha só.

Os programas de varredura do céu em busca de pulsares dos radio-observatórios de Parkers, na Austrália, e Arecibo, em Porto Rico, descobriram uma nova classe de objetos astronômicos, batizados de pulsos rápidos em rádio (FRB na sigla em inglês). Esses novos objetos são sinais de rádio que são detectados em um evento único e muito rápido, da ordem de milissegundos e sem repetição. Em termos mais simples, é como se fosse um flash no céu, detectado em rádio, que não volta a se repetir.

Esses eventos foram descobertos nos bancos de dados dos programas de procura por pulsares. Funciona assim: o radiotelescópio faz uma varredura numa determinada região do céu, e os dados vão para um grande arquivo. Depois de algum tempo, o radiotelescópio observa a mesma região do céu, e os dados vão para o arquivo de novo. Mais tarde, alguém vai lá, baixa tudo e compara os dados. A ideia inicial do projeto era descobrir e catalogar novos pulsares, mas desses dados surgiram surpresas.

Aliás, a história da descoberta de pulsares é bem curiosa. Em 28 de novembro de 1967, Jocelyn Bell e Antony Hewish observaram pulsos muito regulares com um período de 1,33 segundos originários de um ponto no céu. Depois de muito conjecturar, os dois astrônomos eliminaram a maior parte dos objetos astrofísicos conhecidos na época como a fonte desses sinais de rádio. Sem encontrar nenhum mecanismo natural que pudesse produzir pulsos de rádio com um período tão preciso quanto este, Bell e Hewish começaram a dar asas à imaginação e a especular por uma fonte ‘artificial’ dos pulsos.

Esses pulsos bem poderiam ser como um radiofarol interestelar que tivesse sido construído por uma civilização avançada com algum propósito bem definido, seja para usar como um ponto de referência em viagens espaciais, seja para enviar um sinal para o resto da Galáxia.

Informalmente, o sinal passou a ser chamado de LGM, sigla de homenzinhos verdes em inglês, numa referência de que os sinais seriam originários de uma civilização extraterrena inteligente. Com a descoberta de mais e mais pulsares, ficou claro que a ideia de ser um artefato a causar os pulsos não seria plausível, a Via Láctea inteira teria de estar apinhada de radiofaróis e alguma causa natural precisava ser encontrada. Coube a Fred Hoyle apontar as estrelas de nêutrons em rotação como a origem de tanto mistério.

Bom, comparando dados obtidos em um dia com outros obtidos em outra época, vários eventos esporádicos foram descobertos. Ficou óbvio que se tratava de eventos transientes, ou seja, aconteciam uma vez só. Observando-se novamente a mesma região onde havia tido um FRB, nada era encontrado. Como esses eventos foram descobertos nos dados de arquivo, muito depois de terem acontecido, nunca tinha sido possível fazer um acompanhamento posterior à descoberta. Isso acontece com outro tipo de evento transiente e bem conhecido, os pulsos de raios gama ou os GRBs. Assim que eles são detectados pelos satélites em órbita da Terra, um alerta é disparado para os observatórios do mundo inteiro e rapidamente eles passam a acompanhar o fenômeno em outros comprimentos de onda, como o visível ou o infravermelho.

Apenas no último ano foi possível estabelecer uma estratégia semelhante para os FRBs e dada a natureza peculiar deste tipo de evento, todos que trabalham na área estavam esperando pelos resultados. O artigo que eu estava lendo e tinha mencionado no começo do post é justamente sobre isso.

No dia 14 de maio de 2014, um FRB foi detectado pelo radiotelescópio de Parkes e disparou o tal alerta para quase uma dezena de observatórios de vários comprimentos de onda no mundo inteiro. E o que foi observado?

Nada!

Pois é, em raios X, raios gama, visível, infravermelho, em micro-ondas e até mesmo em outras frequências de rádio diferentes das do radiotelescópio de Parkes, nada foi detectado. Quer dizer, havia sempre um ou outro objeto por perto, como uma galáxia com núcleo ativo, estrelas variáveis já conhecidas, até mesmo asteroides, mas nada que pudesse gerar um pulso desses de rádio.

Os GRBs sempre têm alguma observação no infravermelho, por exemplo, e com elas é possível determinar a distância até o local onde ocorreu o evento. Com esse FRB, nada.

Especulações
Então, o que são esses bichos? Ninguém sabe. Alguns especulam que possam ser eventos parecidos com os que ocorrem na Nebulosa do Caranguejo, em nossa Galáxia, mas as temperaturas dos pulsarem são muito diferentes do necessário para que isso seja possível. Outros astrônomos especulam mais alto, dizendo que poderia ter sido um evento de buraco negro evaporando ou mesmo colidindo, já que depois do filme “Interstellar” esse assunto está popular.

O que se sabe deles é pouco, são rápidos, brilham em rádio apenas e parecem que foram originados muito, muito longe. Apesar de não haver observações em outros comprimentos de onda para ajudar, as medidas obtidas só do pulso em rádio permitem dizer que esse FRB de 14 de maio veio de uma distância de uns 6 bilhões de anos luz! Muito, mas muito longe MESMO!

OK, sabemos então que esse FRB (e quem sabe todos os outros) não está na Via Láctea e nem sequer perto dela, o que nos faz dizer que ele está a uma distância cosmológica. Mais do que isso é pura especulação. Mas já que é para especular, dá uma licencinha por favor?

Olhando o tipo de pulso, rápido e sem nenhuma evidência de detecção em outros comprimentos de onda, uma possibilidade soa interessante. Essas são as características exatas de um sinal de rádio enviado como uma mensagem de outra civilização!

Olha só:

Uma mensagem desse tipo precisa ser rápida. Um pulso de rádio que seja emitido para todas as direções do espaço consome muita energia, muita mesmo! Poucos segundos de transmissão em todas as direções deve consumir a energia total produzida por um planeta como a Terra. A ideia é concentrar a transmissão em uma direção específica, o que faz com que a energia total necessária seja muito menor, mas como nossa Galáxia não tem nada de especial (para quem está de fora, claro!) para ser escolhida como alvo, podemos imaginar que alguém tenha decidido fazer uma escolha intermediária, não transmitindo para todo o espaço, mas para uma grande região dele. O consumo de energia é alto, a transmissão precisa ser rápida, mas não drena o planeta todo.

O pulso, rápido, não teria nenhum outro tipo de emissão, nem visível, nem infravermelho, nem raios X. É como o rádio comum, a antena da sua estação preferida emite numa determinada frequência e não brilha, nem emite raios X.

Tudo isso combina bem com os FRBs, né? O problema é se for mesmo uma tentativa de comunicação, ela precisaria ser continuada, ou seja, mesmo que sejam pulsos, a civilização que está “ligando” para alguém no universo precisaria tentar várias vezes para dar chance de alguém notar e responder – e não é isso o que se verificou, pelo menos até o momento.

Outro ponto desfavorável é que a estatísticas indicam que haveria perto de 10 mil desses FRBs por dia, a esmagadora maioria indetectáveis! É muita gente no universo ligando ao mesmo tempo!

Agora, quer saber do mais intrigante? Em um artigo ainda não publicado, uma equipe de três astrônomos mostrou um resultado espantoso. Analisando os 11 FRBs conhecidos até agora, Mikael Hippke e seus colaboradores afirmam que a medida da dispersão das ondas de rádio segue um padrão.

Quando um pulso de rádio é emitido, ele não sai com uma única frequência, mas sim numa faixa bem estreita de frequências. Conforme a onda se propaga no espaço, elas se dispersam no sentido que as que têm frequência maior chegam um pouco antes. Apesar da diferença ser pequena, como a dispersão é um efeito que depende da distância percorrida pelo pulso, ela é usada para se medir a distância até a fonte.

Ocorre que a medida da dispersão das ondas dos 11 FRBs são todos múltiplos de um único valor: 187,5! Em princípio, isso implica que as fontes dos pulsos estariam todos espalhados pelo universo de uma forma assustadoramente regular. É como numa rua de uma cidade em que os postes de luz estão todos a 50 metros uns dos outros.

Por que as medidas da dispersão são assim? Hippke e seus amigos não sabem. Por que todas as medidas são múltiplas de 187,5? Eles sabem menos ainda!

Voltando ao campo especulativo, os autores do estudo dizem que os FRBs poderiam ser naturais, originários de um efeito ainda desconhecidos em pulsares e estariam na nossa galáxia, mas focam mesmo na possibilidade de ter origem artificial.

Uma das possibilidades nem é tão estranha assim, os sinais poderiam vir de satélites espiões em órbita da Terra e nós nunca saberemos se isso é verdade, mas insistem que a possibilidade de ser um sinal alienígena não deve ser descartada. Talvez por isso o artigo esteja encontrando tanta resistência no meio acadêmico.

O assunto FRB em si é muito interessante, com essa pitada de imaginação, mais ainda! Tão interessante que tem colega sugerindo que o pessoal do SETI, o instituto de procura por vida extraterrena inteligente, estudasse esses FRBs. Mesmo com todos os pontos contra, mal não vai fazer.

 

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